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sexta-feira, 25 de julho de 2008

Pequenos espaços, grandes problemas

Daniel Cariello

CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS (27/06/2008)

Julien Drouot não acreditou quando o cara da tevê anunciou o seu nome, e sacudiu Annie, que dormia ao lado.
— Eu ganhei. Ganhei, Annie. É minha!
— Ganhou o quê, Julien?
— A televisão de 150 polegadas, tela plana, totalmente digital, som estéreo futurista e disco rígido interno. Tem até despertador automático, com uma imagem holográfica do Charles Aznavour cantando La Bohème na nossa própria sala. Uma maravilha tecnológica.
— Que história é essa?
— Eles fizeram uma pergunta, e aí escolheram a resposta mais criativa.
— Que pergunta?
— "Qual a diferença entre a mulher e a televisão?"
— E o que você respondeu?
— O controle remoto!
— Você continua de uma finesse sem par, Julien. Mas me diga então onde vamos colocar essa outra tevê. Não vai caber nos nossos quinze metros quadrados.
— São dezesseis e meio, Annie. E eu já pensei em tudo. A gente pode botá-la no lugar daquele objeto marrom ali na parede, que eu nem sei bem pra que serve.
— Aquele objeto marrom ali na parede é o armário de louça. E você não sabe pra que serve porque nunca lavou um só copo na vida.
— Não é verdade. Semana passada eu lavei dois. Tá certo que um deles escorregou e quebrou, mas o outro ficou inteirinho.
— Foi por essas e outras que ontem comprei um lava-louças.
— Um lava-louças? E em que lugar vamos pôr esse monstro?
— Não se preocupe, Julien. Minha mãe vai ajudar a organizar tudo.
— Sua mãe?
— Ela chega na quinta.
— Agora são dois monstros...
— Dessa vez não fica muito tempo não, só um mês.
— Um mês?
— Chato, né? Eu também queria que fosse mais, mas ela disse que não gosta de incomodar.
— Por mim, tudo bem. Só que a velha vai ter que dividir o sofá com o Clement Diderot, que vem passar uma semana em Paris e pediu pra dormir aqui em casa.
— Clement Diderot, o gordo roncador?
— O próprio. Ele vem defender o título do Campeonato Francês de Arroto.
— Ele é asqueroso! Minha mãe não vai agüentar ficar aqui.
— Olha que sorte: eu conheço um hotel baratinho e super limpo a quatorze estações de metrô daqui. Quinze, talvez. Ela vai adorar.
— Você nunca fica feliz quando minha mãe vem.
— Não é verdade. Ela diz coisas que eu adoro.
— Jura?
— Claro.
— O quê?
— "Estou indo embora", por exemplo.
— Julien, você é um grande cretino.
— Annie, você é uma chata de galochas.
— Amanhã me mudo pra casa da minha amiga Marie.
— Não precisa se incomodar. Vou agora mesmo pro apartamento do Pierre. Sábado passo pra pegar minhas coisas.
— Aproveita e leva as suas cuecas furadas, que só entopem as gavetas.
— Pode deixar. Assim você vai ter mais espaço pra todos aqueles tubos e potes de pastas e pomadas.
— Saiba que são cremes de beleza caríssimos.
— E por que não funcionam?
— Suma!
— Fui.
Julien sai e bate a porta. Mas volta minutos depois, com a voz doce e um sorriso no rosto, e entrega um bilhete à Annie. Ela sorri também.
— Annie, pensei bem e tenho uma coisa super importante pra te dizer.
— Diga, mon amour.
— Você pode mandar a televisão nova pra esse endereço aqui?


Fonte: Diplo.

Leia também: Eu X Zidane; Procura-se pão francês e Um quadro, três histórias.

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