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terça-feira, 22 de julho de 2008

O Batman na vida real.

Batman poderia existir, mas não viveria muito tempo
De todos os super-heróis, Batman é o mais terrestre. Não tem super poderes oriundos de um mundo distante e tampouco foi mordido por uma aranha radioativa.
Tudo que o protege do Coringa e outros vilões de Gotham City é sua inteligência e um físico moldado por anos de treinamento - combinados a uma vasta fortuna para alcançar seu potencial máximo e equipá-lo com Batmóveis, Batcabos e outros Bat-apetrechos, é claro. (...)
Para investigar se alguém como Bruce Wayne poderia fisicamente se transformar em uma devastadora gangue de um homem só, o site Scientific American procurou E. Paul Zehr, professor associado de cinesiologia e neurociência na Universidade de Vitória na Columbia Britânica e praticante de Chito-Ryu karate-do há 26 anos.
O livro de Zehr, "Becoming Batman: The Possibility of a Superhero", da The Johns Hopkins University Press, com lançamento previsto para outubro, trata exatamente da nossa questão. (...)


Scientific American: O que os gibis e filmes nos contam a respeito das habilidades físicas de Batman?E. Paul Zehr: Há uma citação de Neal Adams, um grande desenhista de Batman, que diz que o homem-morcego venceria ou poderia participar de todas as competições das Olimpíadas. Se eu fosse seu treinador, provavelmente o colocaria no decathlon.
Embora Batman seja mostrado nos gibis como o mais forte e o mais rápido e todas essas outras coisas, na verdade não é possível ser tudo isso de uma só vez.
Para ser Batman corretamente, o que você realmente precisa é ser excepcionalmente bom em muitas coisas diferentes. É quando você junta todos os pedaços que você tem o Batman.

Scientific American: O que é mais plausível na caracterização das habilidades de Batman?
E. Paul Zehr: Você poderia treinar alguém para ser um fabuloso atleta e ter uma experiência significativa em artes marciais, e também para usar alguns de seus equipamentos, que exigem uma grande proeza física. A maior parte do que você vê ali é viável no nível de que alguém poderia ser treinado àquele extremo. Veremos esse tipo de coisa em menos de um mês, nas Olimpíadas.

Scientific American: O que é menos realista?
E. Paul Zehr: Um ótimo exemplo está nos filmes, quando Batman luta contra múltiplos oponentes e de repente está enfrentando 10 pessoas. Se você apenas estimar a rapidez com que alguém pode socar e chutar, e quantas vezes você pode atingir uma pessoa por segundo, chega-se a números como cinco ou seis. Isso não significa que você conseguiria lutar com cinco ou seis pessoas. Mas também é difícil para quatro ou cinco pessoas atacarem alguém simultaneamente, por ficarem no caminho uns dos outros. Mais realista seria haver dois agressores.

Scientific American:Por quanto tempo Bruce Wayne teria de treinar para se tornar Batman?
E. Paul Zehr: Em algumas das linhas do tempo vistas nos gibis, a história é que ele fica fora por cinco anos - algumas vezes são de três a cinco anos, ou oito anos, ou doze. Em termos das mudanças físicas (força e condicionamento), isso está acontecendo bem rapidamente. Estamos falando de três a cinco anos. Considerando as habilidades físicas necessárias para se defender de todos esses oponentes o tempo todo, eu diria de 10 a 12 anos. Provavelmente a representação mais realista de Batman e seu treinamento estejam em "Batman Begins."

Scientific American: Por que um tempo de treinamento tão longo?
E. Paul Zehr: Batman realmente não pode se dar ao luxo de perder. Perder significaria a morte - ou pelo menos a impossibilidade de ser Batman novamente. Mas outro ponto importante seria ter habilidades suficientes para se defender sem matar ninguém. Porque isso faz parte de seus princípios. Seria muito mais fácil lutar contra alguém se você pudesse incapacitá-lo com força extrema. Atingir alguém na garganta poderia ser um golpe letal. Isso é bem fácil de fazer.
Mas se você está pensando em algo que não resulte em força letal, isso é mais delicado. Ser tão bom, lutar sem ferir ninguém de forma letal, exige um nível extremamente alto de habilidade que levaria talvez de 15 a 18 anos para ser acumulado.

Scientific American: De onde vem o número de 15 a 18 anos?
E. Paul Zehr: Vem do meu próprio treinamento em artes marciais e do aprendizado de quanto tempo uma pessoa leva para responder a situações simples, sem falar nas complexidades de bombas de fumaça explodindo e pessoas usando grandes Bat-trajes. Não importa quanto treinamento você tenha, quando estamos sujeitos a uma grande quantidade de stress psicológico, cometemos muito mais erros.
A polícia fala nisso quando utiliza o chamado treinamento baseado na realidade. Levam-se anos e anos e anos para se ter a segurança de ser capaz de agir quando alguém está atacando você de verdade.

Scientific American: O que é um regime de treinamento realista?
E. Paul Zehr: Eu não coloquei um manual de treinamento no meu livro, mas seria interessante fazer um treinamento de pesos especializado para desenvolver a habilidade de trabalhar em uma taxa muito alta durante talvez 30 segundos a um minuto (o período máximo de tempo associado com suas lutas).
Um dos primeiros gibis o mostra levantando um peso enorme acima de sua cabeça. Esse não é o tipo correto de adaptação para socar e chutar. Ele precisa se assegurar de que esteja usando todas as habilidades treinadas ao mesmo tempo, para que realmente utilize as adaptações (físicas) lentamente obtidas. Nas artes marciais convencionais, quando pessoas recebem treinamento com armas, trata-se de um tipo de treinamento de poder e força.

Scientific American: Que efeitos todo esse treinamento teria no corpo de Bruce Wayne?
E. Paul Zehr: Pesquisei o que a DC Comics e alguns outros livros dizem (sobre o físico de Batman). Assumi a estimativa de que Bruce Wayne começou com aproximadamente 1,90m e 84 quilos. Dei-lhe 20% de gordura corporal (levemente abaixo da média) e um índice de massa corporal de 26. Digamos que depois de 10 ou 15 anos, depois de transformado em Batman, ele pese cerca de 95 quilos com 10% de gordura corporal. Ele provavelmente ganhou mais de 20 quilos de músculos. Seus ossos realmente seriam mais densos, o oposto da osteoporose.

Scientific American: Estamos falando de ossos densos de uma forma fora do comum?
E. Paul Zehr: A mudança percentual é bem pequena, talvez 10%. No judô, onde se vê muitos agarramentos e tombos, você terá mais densidade nos ossos longos do tronco. No karatê e outras artes marciais onde ocorrem muitos chutes, haverá uma densidade bem maior nas pernas. O Muay Thai (kickboxing) é um ótimo exemplo. Eles sempre dão esses chutes com a tíbia. Eles tentam condicionar o corpo chutando objetos progressivamente com mais força e por mais tempo.

Scientific American: E quanto ao tempo de reação?
E. Paul Zehr: Há evidências de que especialistas em algo como futebol americano e hóquei têm uma habilidade aprimorada para perceber o movimento no tempo. No livro uso o exemplo de Steve Nash arremessando a bola, mesmo que ele não possa ver onde o recebedor do passe estará. Especialistas são capazes de extrair mais informação com maior rapidez que os outros. É quase como se os seus sistemas nervosos ficassem mais eficientes.

Scientific American: Como Batman conseguiria descansar o suficiente?
E. Paul Zehr: A dificuldade para Batman é que ele precisa tentar dormir durante o dia. Ele ficará muito cansado, na verdade, a menos que possa realmente trocar o dia pela noite. Se fosse apenas um sujeito noturno, ele seria muito mais saudável e teria um sono bem melhor do que se continuasse a se comportar como faz hoje, que é receber alguma luz aqui e ali. Isso vai estragar seus padrões e duração do sono.

Scientific American: Combater os criminosos de Gotham todas as noites não teria seu preço?
E. Paul Zehr: A parte mais irreal da forma como Batman é retratado é a natureza de seus ferimentos. Na maior parte do tempo, nos gibis e nos filmes, mesmo quando ele ganha, geralmente acaba levando uma boa surra. Há um fracasso real em mostrar o efeito acumulativo disso. No dia seguinte ele está fazendo a mesma coisa, tudo de novo. É mais provável que ele estivesse cansado e ferido.

Scientific American: Há alguma indicação nos quadrinhos da longevidade da carreira de Batman?
E. Paul Zehr: Os gibis são realmente vagos em relação a isso, obviamente. Em "O Retorno do Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, ele mostra deliberadamente um Batman envelhecido voltando da aposentadoria, e o destaca como estando mais fraco e cansado. Em algum lugar entre 50 e 55 anos, ele provavelmente se aposenta. Seu desempenho está decaindo. Está sempre enfrentando adversários mais jovens. Isso é bem no fim de quando ele será capaz de se defender e não ter de lidar com aquela força letal. Isso foi mostrado em uma série animada chamada "Batman Beyond."

Scientific American: Ah, sim. É o futuro; Batman está velho e treina um garoto para substituí-lo.
E. Paul Zehr: Você conhece aquela série? O que aprendemos é que Batman, já mais velho, mas antes de se aposentar, realmente usou uma arma contra um malfeitor, porque precisou fazê-lo. Suas habilidades o deixaram na mão de forma que ele não foi capaz de se defender sem machucar outra pessoa. E foi aí que ele decidiu se retirar da cena.

Scientific American: Como todas as surras afetaram sua longevidade?
E. Paul Zehr: Lembrando que ser Batman significa nunca perder: se você analisar eventos consecutivos onde lutadores profissionais tiveram de defender seus títulos - Muhammad Ali, George Foreman, Ultimate Fighters -, o período mais longo que encontrará é de cerca de dois ou três anos. Isso de certa forma bate com a carreira média dos runningbacks (corredores do futebol americano) da NFL. É de aproximadamente três anos. (Essa é a estatística que consegui no site da Associação de Jogadores da NFL.) A questão é que não é muito longa. É muito duro se tornar Batman em primeiro lugar, e é duro se manter quando você chega lá.

Scientific American: Há uma pesquisa sugerindo que concussões podem gerar depressão em jogadores da NFL. Esse poderia ser um motivo pelo qual o Cavaleiro das Trevas é tão pensativo?
E. Paul Zehr: Passei por muitos quadrinhos e Graphic Novels e só encontrei um par de exemplos onde alguns dos golpes na cabeça de Batman tiveram o efeito de algo como uma concussão. Na vida real, esse seria um resultado bastante provável. Ele é capaz de compensar alguns dos danos físicos à sua cabeça porque o uniforme funciona um pouco como um capacete. Mas esses golpes definitivamente somariam. Já que eles não admitem que ele tenha concussões, você não pode defini-las como a razão pela qual ele é pensativo.

Scientific American: Você acha que Batman tomaria esteróides para se curar mais rapidamente?
E. Paul Zehr: Não. Há um gibi onde ele tomou esteróides. Ficou um pouco louco e desistiu deles.

Scientific American: Na sua opinião, quantos de nós poderiam se tornar um Batman?
E. Paul Zehr: Se pegarmos a porcentagem de bilionários e multiplicarmos pela porcentagem de pessoas que se tornam atletas olímpicos, provavelmente chegaríamos a uma estimativa próxima. O ponto mais importante é o que um ser humano realmente consegue fazer. O alcance do desempenho que você pode conquistar é simplesmente enorme.

The New York Times

Fonte: Terra.

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