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quarta-feira, 30 de julho de 2008

A contagem regressiva de 1968, “o ano que não terminou”

Na época, não passava pela cabeça de ninguém que aquele ano, 1968, teria uma importância histórica tão grande. O cartunista brasileiro Angeli era um adolescente de 12 anos, mas já sentia, como ele diz hoje, “o cheiro de alguma coisa, que eu não entendia, mas sabia que estava acontecendo”. Se os anos 60 são “a década que mudou tudo”, o ano de 1968 é o mais importante da década e maio é o mês mais importante do ano. O jornalista Zuenir Ventura acertou em cheio ao dar o título “1968 - O Ano que Não Terminou” ao seu livro sobre aquele ano (400 mil exemplares vendidos).
Para compreender a importância histórica de 1968, é bom reunir os seguintes depoimentos de brasileiros e estrangeiros:
Edgar Morin, 87, pensador francês - “1968 foi, antes de mais nada, um ano de revolta estudantil e juvenil, numa onda que atingiu países de naturezas sociais e estruturas tão diferentes como Egito, Estados Unidos, Polônia... O denominador comum é uma revolta contra a autoridade do Estado e da família.”
Michel Maffesoli, 64, sociólogo francês - “1968 se mostrou uma revolução subterrânea que reformou as pequenas esferas do trabalho, da família e da escola. Transformou nossa maneira de falar, de sentir. Foi uma verdadeira liberação dos costumes [...] Maio de 68 marcou o início da pós-modernidade.”
Zuenir Ventura, 77, jornalista brasileiro - “[Em 1968] ou jovens eram muito agressivos e respondiam: ‘Não confie em ninguém com mais de 30 anos’ [...] Havia uma certa utopia ingênua ao achar que as drogas poderiam ser instrumento de abertura das consciências. Mas essa realidade se mostrou perversa.”
Nicolas Sarkozy, 53, presidente da França - “O legado do Maio de 68 impôs a idéia de que não existia mais qualquer diferença entre bom e mau, verdade e falsidade, beleza e feiúra. Sua herança introduziu o cinismo na sociedade e na política.”
José Eli da Veiga, 60, professor de economia na USP - “O que o fundamental Maio de 1968 desencadeou entre os jovens foi uma adesão a valores e causas estranhas aos seus pais e avós, marcados pelas circunstâncias de duas guerras mundiais que abriram e fecharam a maior crise capitalista.”
Maria Clara Bingemer, 58, teóloga e professora da USP - “[Em 1968] o movimento “hippie” estava no auge, com seu lema ‘faça o amor, não faça guerra’. A juventude recusou o mundo legado por seus pais, encharcado do sangue de duas guerras mundiais, da tensão da Guerra Fria e do assassinato em massa na Guerra do Vietnã. E o caminho que encontrou para seu protesto foi redescobrir a natureza, a liberdade das relações sexuais, o sexo sem conseqüências, garantido pela pílula anticoncepcional que as mulheres começaram a tomar para evitar a gravidez indesejada [...] O ano de 1968 foi marcado pela rejeição a todo autoritarismo e totalitarismo, afetando a interlocução e o diálogo entre gerações e estamentos da sociedade.”
Michael de Certeau, 61, jesuíta francês - “Em maio de 1968 tomou-se a palavra como tomou-se a Bastilha em 1789.”
Miriam Goldenberg, antropóloga e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro - “Os eventos do Maio de 68 na França podem ser interpretados como o estopim de uma série de transformações políticas e comportamentais ocorridas na segunda metade do século 20 e que tiveram como eixos centrais: o desejo de liberdade, a busca de prazer sem limite, a recusa de qualquer forma de controle e de autoridade e a defesa da igualdade entre homens e mulheres (...) Para os jovens estudantes franceses do Maio de 68, liberdade, felicidade e prazer eram elementos inseparáveis de uma revolução cujo lema era: ‘É proibido proibir’.”
Boris Groys, 61, filósofo - “O ano de 1968 foi o afluxo súbito de energia. Por todo o mundo - em Moscou, em Praga, na América, na China, em Paris, na Alemanha - muitas pessoas começaram a reivindicar: ‘queremos fazer qualquer coisa sem ter de fazê-lo’.”
Jacques Rancière, professor na Universidade de Paris 8 - “Maio de 68 tornou-se retrospectivamente o movimento de uma juventude impaciente para gozar todas as promessas do livre consumo do sexo e das mercadorias. [...] O movimento de 1968, depois de ser reduzido a transbordamentos da juventude sem conseqüência para a ordem social, viu-se carregado, ao inverso, de um peso histórico desastroso [...]. Ao transformar a sociedade inteira em uma agregação de consumidores narcisistas, desligados de qualquer elo social, ele garantiu o triunfo definitivo do mercado capitalista [...]. Maio de 68 estava consagrado como o providencial salvador do capitalismo.”
Slavoj Zizek, 59, filósofo esloveno - “Os eventos explosivos visíveis [de 1968] foram, em última instância, o resultado de um desequilíbrio estrutural - a passagem de uma forma de dominação para outra [...]. O que sobreviveu da libertação sexual dos anos 1960 foi o hedonismo tolerante, facilmente incorporado a nossa ideologia hegemônica: hoje o prazer sexual não apenas é permitido, é ordenado - os indivíduos se sentem culpados quando não podem desfrutá-lo.”
Daniel Cohn-Bendit, 63, deputado no Parlamento Europeu, do Partido Verde Alemão - “[Em maio de 1968] não conhecíamos a aids nem degradações climáticas nem provações da globalização, do desemprego. Éramos prometéicos. Tudo parecia possível. O futuro nos pertencia. [...] É muito mais angustiante ser jovem hoje do que há 40 anos. Mas quem tem vontade de se revoltar se revolta! [...] Em todo caso, 1968 não deve ser visto como modelo. Retenham simplesmente que existem momentos históricos em que alguma coisa explode - um desejo de fazer avançar, de transformar a sociedade -, e que isso pode funcionar.”
Foi exatamente em janeiro de 1968, nesse ano completamente doido que reúne e colhe as tragédias dos anos anteriores mais doidos ainda, que o então jornal Ultimato começou a sua carreira, meio ingenuamente, mas, ao mesmo tempo, certo de que alguma coisa estava acontecendo. O primeiro parágrafo do primeiro artigo publicado na primeira página da primeira edição dizia solenemente:
“A contagem regressiva do tempo [o ano de 1968] começou: 366, 365, 364, 363... A 31 de dezembro teremos chegado ao fim, ao último número, e haverá a explosão de júbilo ou de tristeza. De júbilo, se houver ações de graças. De tristeza, se houver remorso e reconhecimento tardio de culpa e de erro. Moisés foi muito sensato quando pediu a Deus: “Ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12). Esta deve ser a nossa oração no limiar deste novo ano. A vitória está condicionada a certos meios de graça à nossa disposição!”

Fonte: Ultimato.

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