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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Revolta da Chibata ganha HQ, em ano de anistia

MARCO AURÉLIO CANÔNICO
da Folha de S.Paulo, em 15/10/2008

"Há muito tempo
nas águas da Guanabara
o dragão do mar apareceu
na figura de um bravo marinheiro
a quem a história não esqueceu."

Apesar da homenagem de Aldir Blanc e João Bosco em "O Mestre-Sala dos Mares" (1975), o personagem da canção, João Cândido Felisberto (1880-1969), líder da Revolta da Chibata, foi largamente ignorado por quase um século, como mostra o recém-lançado álbum em quadrinhos "Chibata!".

Criada pelos cearenses Olinto Gadelha (texto) e Hemeterio (desenhos), a HQ mistura ficção e documentos históricos para narrar a vida de João Cândido da infância à velhice, tendo como foco sua liderança na rebelião dos marinheiros contra os castigos físicos, em 1910.

A sugestão do tema veio da Conrad, em 2005 --a editora convidou Hemeterio para desenhar a HQ e este chamou Gadelha, com quem já trabalhava há tempos, para criar o roteiro.

A partir daí, começou um trabalho de pesquisa nas bibliotecas públicas de Fortaleza e na internet, além de uma visita ao Rio, cenário da ação.

"A gente conhecia superficialmente a história do João Cândido e, quando acabamos a pesquisa, descobrimos um herói do mesmo porte do Tiradentes", diz Hemeterio.

"É a típica saga do herói: ascensão e queda, abnegação, sacrifício. Ele entregou sua vida por uma causa, mesmo sabendo que era uma causa perdida. É um personagem grandioso que estava escondido."

Revolta e traição

A HQ é narrada com idas e vindas cronológicas, a partir de flashbacks do velho João Cândido no período em que esteve internado no hospício da Praia Vermelha, no Rio.

Os autores imaginam a infância do filho de ex-escravos no Rio Grande do Sul e mostram sua entrada na Marinha e as condições degradantes a que eram submetidos os marujos -com comida estragada e chibatadas como punição.

Além de narrar a noite da revolta, em 22 de novembro de 1910, quando João Cândido e 2.300 marinheiros tomaram as grandes embarcações da armada, o livro mostra os desdobramentos políticos do episódio.

Tabu

Apesar de terem conseguido um acordo e uma anistia por parte da Marinha, os revoltosos foram punidos posteriormente com prisão, tortura e, em alguns casos, execução.

A partir daí, o tema virou tabu. "Mesmo nos tempos modernos, todos que tentaram falar sobre a Revolta da Chibata sem se ater à versão oficial sofreram represálias", diz Gadelha. A HQ mostra um desses episódios: a infame surra no jornalista Aparício Torelly, o Barão de Itararé.

"Chibata!" vem coroar, pelo lado da cultura pop, o ano em que João Cândido e seus companheiros foram oficialmente anistiados pelo lado político.

Em março, a Marinha tornou públicos documentos oficiais referentes a João Cândido. Em julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou projeto de anistia ao marinheiro.

"[A anistia] foi simbólica, mas deveria ter acontecido enquanto ele estava vivo. Agora é como pedir perdão para o vento", diz Gadelha. "Com a proximidade do centenário [da revolta, em 2010] espero que haja outros projetos sobre ele."

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