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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Os Pastores do Apocalipse

por Wagner Archela

Aquela noite foi a mais longa e assustadora das nossas vidas. A lua minguante cruzou o firmamento como uma foice, golpeando as estrelas para fora do céu. Fomos envolvidos por uma escuridão, tão densa quanto os gemidos do Espirito.
A tristeza nos tomou por completo. Aqueles que levaram cativo o nosso ânimo, nos pediam uma canção; e os que destruíram nossos lares nos desafiavam a que os alegrássemos dizendo: "Cantem uma nova canção... Cante e com teu canto juntaremos riquezas."

Eles tomaram nossa mocidade em troca de um deus que não descia do púlpito; emularam uma divindade que não existia.

Uns eram poderosos e ordenavam coisas que realmente aconteciam; outros, de fala rebuscada, costuravam devaneios, como que querendo unir a tua Santa Palavra aos delírios de loucos heróis.
Todos iludiam igualmente, como os antigos egípcios faziam das pessoas escravos, a fim de erigir enormes monumentos.

Nossos talentos foram vendidos como mercadoria. Meus amigos, uma vez vazios, desfaleceram pelo caminho e foram atropelados pelo cortejo da empreita.

Nós, os que passavam as madrugadas em joelhos e lágrimas, abraçamos teu Anjo naquela noite escura, com tanto desespero, que este nos deixou seqüelas. E não o deixamos ir antes da Aurora.

(...)

"- Vamos embora agora, enquanto os lobos dormem. Vamos antes que a noite volte."

Em meio a tantas quinquilharias inúteis guardadas no sótão, penduramos nossas guitarras, depois caminhamos junto ao rio que corta a cidade, ali nos assentamos e choramos... lembrávamos da igreja e dos nossos amigos.

Nossa boca se fechou. Nosso lamento era um prisioneiro, um gemido doloroso que passava por entre os dentes cerrados.

De volta ao templo, não falávamos. Não havia mais ninguém, só o Espirito de Deus entrava pelas janelas. Ele trazia em suas mãos um bálsamo de perfume gostoso e esfregava a cura em nossas almas com tanta ternura, que nos fez lembrar o colo de nossas mães.

Desta vez, só Ele, só o Espirito Santo ouvia a nossa musica. Ouvia lá dentro, em lugares que não existiam sem o Espirito, lugares onde as palavras não faziam sentido, nem mesmo eram necessárias.

Nosso irmão mais velho entrou pelas portas como um sol ao meio-dia e trouxe consigo uma enorme multidão! Pulavam em festa, agarravam suas pernas e pulavam em suas costas. Que visão feliz!

(...)

- A boa ventura, que esperamos de ti ó Pai, é que tu nos devolva noutras terras o que larápio roubou em nossas almas.

Nos encantaram com fábulas. Éramos como meninos sonhando. Enquanto isso, o valor se desfez tal qual o sal sob a chuva.

Em meio a tantos excessos, preferimos a língua dos anjos, sem duvidar da língua dos homens...
Que anjos, que nada! Eram homens!

Confinaram nossos dons em caixotes sujos, sugaram nossa arte para a ilusão de sonhos infames...
E tu, ó Deus Amor, tu nunca nos deixaste!

(...) tu nunca nos deixaste! Que amor é esse que tanto suporta?

Nós, os do caminho, tratávamos da trave de um e o cisco do outro, a fim de amar por nada, por que é essa matéria que tu ó Pai, nos deu ao longo da estrada. Amar e amar sem motivo.

Teus pastores pecaram. E até quando amaram, o fizeram pra que os amassem de volta.

Nós, que outrora andávamos cegos, enganados com deuses e homens, finalmente escapamos da noite. E assim, choramos a injustiça como nossa e confessamos os pecados com angústia.

(...) Tu que eras o estranho reflexo que víamos no espelho.

O Deus quem em segredo sustentava; o improvável amor das pessoas.

És o Amor que nos amou, não para que o amássemos de volta, mas para que nos amássemos uns aos outros.

Ora, vem Senhor! Este é o teu Reino. Nele haveremos de cantar pelos séculos dos séculos!

Texto na íntegra: Cristianismo Criativo.

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