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quarta-feira, 18 de março de 2009

'Minha comunhão é com Deus'

Rivaldo Mendes de Albuquerque, professor de Medicina da Universidade Estadual de Pernambuco, em entrevista à Carta Capital sobre a excomunhão sofrida após a realização do aborto em uma menina de 9 anos abusada pelo padastro, em Alagoinha, no agreste pernambucano:

CartaCapital: Como o senhor se sentiu ao ser excomungado pela segunda vez?
Rivaldo Mendes de Albuquerque: Não modificou absolutamente em nada a minha vida. A excomunhão não fechou meus olhos para as violências que vejo praticadas, diariamente, contra as mulheres. Sou médico e constato que o aborto é uma questão de saúde pública. A excomunhão em nada ajuda a resolver este problema. Apenas reforça uma postura da Igreja, que não está associada aos que mais precisam. Do ponto de vista religioso, a penalidade é forte, mas não me atinge porque tenho a certeza de que estou ajudando mulheres a saírem de situações extremas. Viver uma situação de violência é como viver no inferno.

CC: O senhor frequenta a missa regularmente. Passou a ser alvo de olhares de desprezo ou reprovação após as excomunhões?
RMA: Na primeira vez, fiquei impactado, mas depois percebi que não era nada daquilo. Nunca deixei de comungar. Minha comunhão é com Deus. Em 1996 eu não recebi tanta solidariedade como agora, pois a divulgação não foi tão grande como desta vez. Agora, infelizmente, o arcebispo não demonstrou um olhar de piedade por uma criança. Manifestou apenas um olhar de raiva, de castigo.

CC: Como a equipe médica se comportou após a excomunhão conjunta?
RMA: Todos demonstram muita tranquilidade. Lamentavelmente, o caso dessa garota é apenas mais um entre tantos com os quais lidamos aqui. A violência contra a mulher existe, e os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres têm de ser respeitados. O aborto ser crime não protege as mulheres, não evita que ocorra, nem dá saúde à mulher. Ou seja: não resolve o problema. A descriminalização pode melhorar essa situação. Com ela, teremos de respeitar a vontade das pessoas. O Estado é laico e deveria agir como tal, não cedendo às pressões da Igreja.

Fonte: Carta Capital.

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