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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Novas igrejas viram abrigos de diferentes estilos

Por Gabriel Louback, especial para o Yahoo! Brasil, em 04/06/2009.

Fotos por Jucélio Jr e Otávio Almeida


Toco a campainha e abrem o portão. Às quartas-feiras, a partir das 20h30, ele fica aberto, sem necessidade de tranca. Mario Mansho recebe os amigos em casa. É a reunião de uma 'célula' dos membros da Bola de Neve Church. Reúnem-se para cantar, estudar a Bíblia e compartilhar os problemas e alegrias. Problemas que levaram a família Mansho à igreja.


Caio, filho de Mario, começou a se envolver com drogas, aos 15 anos. Assumiu também uma hostilidade que levou o pai a procurar o padre da paróquia que frequentava. Nunca recebeu uma visita sequer, nem houve intenção de ajudá-lo. O primo de Caio já frequentava a Bola de Neve e um dia, acompanhado pelo apóstolo Rina, líder da igreja evangélica, passou na casa do tio, para uma visita. Rina soube da história de Caio e perguntou se podia entrar, para orar pelo garoto e conversar com ele. Convidou a família Mansho a visitar a igreja que, aos poucos, foi se sentindo acolhida na comunidade.



Mario conta que era católico ferrenho e não vê problema em alguém frequentar as missas, mas se decepcionou quando precisou das pessoas fora da paróquia. Ele conta, com lágrima nos olhos, como passava em frente ao quarto de Caio, ouvia xingamentos e um "Eu te odeio" no final. Mario apenas respondia: "Eu te amo".

"Eu te amo", foi o que o Pastor Batista disse à Ana Batista (sem parentesco), antes dele iniciar o show da banda na qual é o líder, a Antidemon. Ele não a conhecia, mas acabou cruzando com ela sem querer e sentiu que devia dizer aquilo, o que não é comum fazer, com pessoas desconhecidas.

Ana, na época, era conhecida pelos amigos como Sinistra, uma anarco-punk revoltada com a sociedade. Naquela noite, saiu de casa com um machado e um soco inglês, decidida a matar o Pr. Batista. Caso não conseguisse o feito, garantiu que pelo menos ele não andaria mais pelo resto da vida. O ministério de Batista com pessoas que ouvem death metal (gênero tocado pela Antidemon), heavy metal, punk rock, entre outros, alcançou os amigos de Sinistra. Eles passaram a frequentar os cultos e eventos com o pastor, agora jurado de morte. Sinistra chegou ao galpão do show procurando por ele e não soube que o "Eu te amo" vinha justamente de seu procurado.

Desde os sete anos que ela não ouvia essas palavras e, na hora em que soube que havia ouvido-as de quem queria acertar com um machado, ele já estava no palco. Aquele show mudou a vida de Sinistra. O choque no momento foi tão grande, que ela não conseguia se mexer. Teve de ser carregada até o pé do palco, quando Batista chamou à frente aqueles que tinham o desejo de orar com ele, entregando suas vidas a Jesus. Sinistra, deixou de lado o machado, o soco inglês e o codinome para se tornar a diaconisa Ana Batista, auxiliar no ministério da igreja Crash Church, onde o Pr. Batista é líder.

No domingo em que visitei a Crash, havia aproximadamente 30 pessoas. Não chegavam a cinco as que estavam com camisetas claras ou coloridas (incluindo a minha verde). No palco, heavy metal. De repente, quase no final do culto, me surpreendo com um reggae. Logo, o som vira ska e daí para um punk rock é um pulo. Os membros vão para perto do palco e pulam junto com o Pr. Batista. Parece que estão em casa, com a família e irmãos.

Esse também é o sentimento percebido na Bola de Neve. A igreja é conhecida pelo perfil que abriga em seus cultos: jovens e praticantes de esportes radicais - principalmente o surf. Apesar disso, há diversas pessoas que passaram da meia-idade.

A Bola de Neve é irmã da Crash Church. As duas nasceram dentro da Renascer em Cristo, como um grupo que se diferenciava e não encontrava mais um espaço para si. Batista conta que em 1998 as pessoas começaram a olhar estranho para ele e os amigos que frequentavam a igreja, ocupando diversos bancos e todos vestidos de preto. Era algo que impactava e o Pr. Batista detalha a história sem nenhum pingo de ressentimento ou mágoa. "Hoje entendo que algumas pessoas não conseguiam assimilar aquilo muito bem. Não posso reclamar, pois se não fosse esse fato, não teríamos esse belo ministério".

Bruna Suruagy, psicóloga, fez sua tese de mestrado baseada em comportamentos dos jovens na Bola de Neve. Descobriu que a procura por igrejas assim acontece não apenas por identificação, mas pelo sentimento de pertencer àquele grupo. Inicialmente, a idéia era estudar os relacionamentos afetivos entre eles, mas automaticamente acabou caindo na questão da sexualidade, algo que aconteceu por conta dos próprios jovens.

Ao mesmo tempo em que o discurso parece ser liberal e flexível, há uma cobrança rígida sobre o comportamento dos jovens. São eles que expõem esse sentimento nas entrevistas que Bruna fez. Ela explica que isso está atrelado ao fato da própria igreja viver esse paradoxo: acaba passando uma imagem de liberal, o que faz com que diversas pessoas os procurem por causa disso. No entanto, são histórias de ex-drogados, ex-prostitutas e membros que tiveram uma vida sem muitos limites, o que acaba sendo um equilíbrio para eles, ao encontrarem um local com regras bem definidas. Com isso, a igreja passa uma mensagem às outras de não ser aquele 'oba-oba' que alguns pensam existir.

Os ritos tradicionais, como o dízimo e a ceia, são elementos presentes nessas novas igrejas. Novas, pois algumas protestantes contam com mais de 100 anos de história. Para Bruna, a grande diferença entre as igrejas mais novas e as tradicionais é que as mais novas, por causa de seu discurso liberal, parecem pregar uma não-ruptura com as práticas dos membros. À primeira vista, ele não precisa abrir mão de nada para comungar. Porém, o cenário muda quando tornam-se membros e percebem que essa liberalidade é mais no discurso, já que a igreja conta com rígidos códigos de conduta. Nem sempre são explicitados ou colocados no papel, mas a cobrança é sentida, como observou Bruna em suas pesquisas. Já nas igrejas tradicionais, há uma ênfase muito forte na mudança de vida, antes mesmo da pessoa tornar-se parte integrante da comunidade. Com isso, muitos nem chegam a experimentar a igreja.

Bruna explica que a cobrança nas novas igrejas para uma mudança de vida existe e é muito sutil. "A liberalidade, muitas vezes, esconde uma austeridade. A censura não aparece como uma imposição, mas como um comportamento deliberadamente assumido por seus membros", afirma com base em suas pesquisas. Ou seja, a cobrança é forte e real. Mas do jeito que é pregada, o membro da igreja acaba achando que aquilo é simplesmente algo que ele decidiu. "Muitos chegavam me dizendo que algumas vezes o código era muito rígido sim, mas que eles só aceitavam-no porque concordavam", conta Bruna. Ela afirma que existem sim casos onde a pessoa pode assumir aquilo como parte de si, mas o discurso, muitas vezes contraditório, entregava o que estava por trás daquele discurso.

Além disso, por ser uma igreja muito ligada aos esportes, a saúde é valorizada e o corpo saudável, como corpo bonito, também. Ou seja, a liberalização do corpo anda ao lado da repressão do desejo. A confusão na mente jovem está armada. Apesar disso, os laços construídos são absolutamente sólidos e eficazes, o que muitas vezes inibe algum membro em contrariar uma norma, sabendo que perderá aquilo que de mais valioso encontrou: abrigo.

Fonte: Yahoo! Notícias.

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