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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Na escuridão, L.F. Pondé - Fragmentos.

SOU PROFESSOR , entro em sala todos os dias. (...) o que falta muitas vezes na sala de aula é falarmos "a verdade". (...) acredito que há uma milagrosa relação entre o ser humano e "a verdade" quando ele percebe que ela é dita sem medo.
Uma grande traição feita aos mais jovens é atolá-los em "teorias a serviço da emancipação". Eu não quero emancipar ninguém porque para isso teria que mentir. Mentimos para sobreviver, isso é normal e civilizado, mas na sala de aula é uma traição.
(...) Hoje em dia você aprende no jardim da infância que "tudo é relativo", "a verdade" não existe, e todos os males do mundo são fruto do patriarcalismo e da Igreja Católica. Caricaturas ridículas da história são feitas a serviço da "liberdade"! Palavra já banal, quase idiota.
(...) Uma boa dose de auto-estima se faz necessária para não cairmos de joelhos diante desta "nova repressão". Toda fórmula para chegar à auto-estima é falsa, por isso resta-nos o sorriso da sorte ou da morte.
Quando falo "a verdade", me refiro a coisas mais simples (...). Refiro-me à luta cotidiana com nossa caótica condição humana e ainda termos que manter o bom humor e pagarmos as contas.
Refiro-me àquilo que gente como Ítalo Calvino chama de "dramas clássicos". O problema é que para ensinar isso, antes de tudo precisamos conhecer "isso" (coisa que vai ficando rara em meio ao blábláblá do relativismo cultural e da democracia no ensino). E pior, não podemos ter medo. Um dos dramas humilhantes do "otimismo moderno" é que para ser otimista temos que ser idiotas e negarmos os impasses assustadores da vida.
Explico-me: acho que os mais jovens agüentam ouvir "a verdade" mais do que professores de meia-idade. (...) a vida não é a bobagem das utopias de Maio de 68, tipo "sexo livre e é proibido proibir", mas se calam diante dessa dolorosa consciência. Às vezes por uma mera questão de salário. O pior é quando a resistência a isso se manifesta em meio à silenciosa melancolia da idade avançada. Na velhice não há festa e há muito silêncio.
Por exemplo, o ciúme do Otelo de Shakespeare. Todo homem é inseguro diante da mulher amada. É um tipo de maldição. Quando não é inseguro, é porque não ama. Se ela for muito bonita, muito simpática e "circular muito por ai", essa insegurança piora. Com isso não quero dizer que o homem deva "reprimir" a mulher para se sentir melhor, mesmo porque não adianta. (...)
(...) a cama do casal virou uma frente de trabalho. É desgastante o fato de que devemos trabalhar "a relação" o tempo inteiro: nossos preconceitos, nossas inseguranças, nossos fracassos. O mercado de trabalho nos esgota, e o amor é uma trincheira. O imperativo da saúde total (psicológica, política e social) é uma praga que nos cobre como uma poeira invisível. (...) nos sufoca, entrando pela boca. Explico-me: ou somos doentes ou somos ridículos, nunca saudáveis.
Outro exemplo, a infidelidade da Madame Bovary de Flaubert. (...) a trágica figura da infeliz envelhecida que nos aborda com a segunda taça de vinho branco nas mãos (...) que sonhava com uma vida cheia de paixões e acordou entre o tédio do cotidiano e a força cega do desejo destrutivo. Qualquer menina de 18 anos ouve isso e reconhece na infeliz Emma Bovary um risco possível: posso eu mesma virar uma Bovary, basta acreditar que a vida pode ser cheia de paixões!
A fronteira entre a paixão e o inferno é invisível. Os seres humanos reais caminham nessa tênue linha de sombra. Otelo, Bovary, você e eu, juntos, na escuridão.

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo.

Texto completo via Pavablog.

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