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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O teatro Grande Otelo: homenagem e (des)construção da memória

Tadeu Pereira dos Santos*, em 24/12/2008.

Em 2008, no début da ausência do artista e compositor Grande Otelo, apesar do seu inequívoco legado à cultura brasileira, Otelo permanece como uma figura emblemática, suscitadora de discussões e controvérsias, a exemplo do Teatro Grande Otelo expressão última das homenagens a ele tributadas em caráter nacional.

O cenário urbano uberlandense tem suas histórias constituídas em um processo, onde as (re)configurações dos modos de vidas das pessoas se dão conjuntamente com as suas transformações sócio-culturais. A instituição de novos espaços modeladores da imagem de moderna cidade produziu novos sentidos, ao demolirem espaços físicos, materializados de histórias construídas por diferentes sujeitos sociais.

Desse modo, a constituição de novos espaços implicou no apagamento de inúmeras memórias que, atualmente são guardadas nas lembranças de sujeitos que viveram em outras épocas e em páginas de jornal e em fotografias, lugares materializadores de histórias da cidade.

Nesse cenário urbano situa-se no centro da cidade, o Teatro Grande Otelo. Lugar condensador de memórias dos tempos do Cine Vera - Cruz, que a partir da década de 1990, simbolizou significados da vida do artista e compositor. Espaço agregador de uma multiplicidade de significados nas lembranças de sujeitos sociais que o freqüentavam, o teatro se constitui, atualmente, em um “espaço de memórias destituídas” se inserindo, dessa forma, na seara de esquecimento e lembranças. Isto é, a paisagem visualizada pelos transeuntes que passam pela Avenida João Pinheiro em frente ao teatro, é de um local fechado, deteriorado em seu espaço físico. Cena que se tornou comum, uma vez que suas portas estão cerradas desde o início das reformas em 2002.

Este espaço outrora se configurava como condensador de histórias do viver a cidade, em um momento em que o cinema era o principal meio de lazer organizado e, ainda, das relações construídas entre Uberlândia. Grande Otelo atualmente é um teatro em ruínas.

Mediante essas considerações, apontamos o caráter simbólico que o tangencia. Dessa forma, ao estabelecermos o diálogo do presente (2008) com os tempos passados (1993), a sua relevância se dá pela simbologia que assegura lugar para a história construída na e para a cidade.

Destacamos ainda os significados presentes no transcorrer do cortejo fúnebre de Grande Otelo em Uberlândia. A última homenagem feita ao artista no país, com a mudança de nome do Cine Vera - Cruz (11/11/1993) para Teatro Grande Otelo, fora efetuada 15 dias antes de seu falecimento (26/11/1993), com o objetivo de, por meio do artista, colocar a cidade em evidência no cenário nacional. Nas homenagens desenvolvidas pela localidade a Otelo, o teatro constituiu-se em seu maior feito, cuja concretude era visível nesse espaço, aberto à visitação da população, sobretudo quando se trata de atrelar o funcionamento do teatro à realidade vivida pelos sujeitos que o freqüentavam.

Atualmente, 15 anos após a produção desses significados, observa-se, por intermédio dos meios de comunicação locais, a construção de outros em datas celebrativas (aniversários da cidade e finados), numa tentativa de se evidenciar a ligação de Otelo com a cidade. Todavia, o teatro que materializou, em tempos anteriores, a última homenagem ao filho mais ilustre de Uberlândia, encontra-se em processo de deteriorização e, ao mesmo tempo, coloca em dúvida os objetivos que estão por trás da construção da referida memória do artista, haja vista que são percebidos nesse processo contradições e uma esteira utilitarista, refletida no uso da imagem de Grande Otelo.

Assim sendo, perguntamos: constituirá o teatro Grande Otelo, nessa sociedade em transformação, também uma vaga lembrança a se juntar aos inúmeros outros espaços que cederam lugar à nova configuração espacial edificada em nome da modernidade? As autoridades responsáveis tomarão as devidas providências, na restauração de um espaço significativo para a história da cidade, não somente por ter em sua fachada o nome do artista Sebastião Prata, materializado em sua personagem Grande Otelo, mas por sua importância às histórias da própria cidade?

* Mestrando em História pela Universidade Federal de Uberlândia e bolsista CAPES.

Fonte: Gazeta do Triângulo; Diário do Jequi.

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