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terça-feira, 7 de abril de 2009

'Inimigo número 1' de Deus na Bíblia vira vilão em filme de ficção científica

Produção do canal Sci-Fi transforma deus Baal em ameaça climática.
No antigo Oriente Próximo, divindade era considerada benigna.


Reinaldo José
Do G1, em São Paulo


O arqui-inimigo de Deus na Bíblia é o mais novo vilão da ficção científica -- e não estamos falando do Diabo. Uma produção do canal de TV a cabo Sci-Fi, que estreia nesta terça (7), às 23h, transformou o antigo deus cananeu Baal, cujo culto idolátrico seduzia os israelitas no Antigo Testamento, no pivô de sua trama.

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O filme "Ba'al: o deus da tempestade", que será exibido simultaneamente em vários países da América Latina, é um thriller arqueológico no qual dois pesquisadores tentam recuperar amuletos místicos e evitar que a divindade -- a qual teria sido derrotada por seu pai -- recupere seus poderes e arrase o planeta com desastres climáticos.

Em entrevista coletiva por telefone, os protagonistas do filme -- o americano Jeremy London, que interpreta o arqueólogo Dr. Helm, e a canadense Stefanie von Pfetten, que faz a linguista Carol Gage -- dizem que a trama aborda apenas o lado mitológico de Baal, e não sua relação com os personagens bíblicos. "Essa fascinação com outros mundos é atemporal, sempre existiu e sempre vai existir", diz Von Pfetten. "A mitologia é sempre uma fonte de imaginação muito interessante, e é legal ver como os antigos mitos interagem com a história moderna", diz London.


Samba do crioulo doido

Ainda bem que os participantes da produção enfatizaram o lado fantasioso do filme, porque a trama realmente só usa os mitos originais sobre Baal (ou Ba'al; as duas grafias são possíveis) como um vago pretexto para a história. Para começar, o Baal do filme é um deus sumério (antiga civilização da Mesopotâmia, o atual Iraque), enquanto o Baal bíblico é venerado por culturas totalmente diferentes, nativas da Palestina, do Líbano e da Síria.

A linguista vivida por Von Pfetten também precisa descobrir a localização dos amuletos ligados a Baal decifrando o famoso Rolo de Cobre, um dos chamados Manuscritos do Mar Morto. O detalhe, porém, é que o Rolo de Cobre foi decifrado há décadas e não contém menção alguma a Baal, divindade que já tinha sido praticamente esquecida quando o texto foi escrito no começo da Era Cristã. Mas, de fato, o texto do Rolo de Cobre fala de um fabuloso tesouro, talvez retirado do Templo de Jerusalém.

Apesar das pesadas críticas ao culto a Baal feitas na Bíblia -- afinal, os israelitas, segundo a Lei de Moisés, deviam adorar apenas a Javé --, o deus não tinha nada de demoníaco, ao menos para seus adoradores. Baal era o deus da tempestade porque trazia a chuva para as terras secas do Oriente Próximo. Em vários mitos sobre ele desenterrados em antigas cidades da região, como Ugarit, Baal também tem um papel de organizador do Universo, derrotando em batalha deuses ligados ao caos primitivo, como Yam, senhor dos mares.

O consenso atual entre os estudiosos do texto bíblico também indica que o próprio culto ao Deus único israelita foi influenciado pela figura de Baal. Alguns paralelos importantes envolvem as chamadas teofanias (manifestações divinas) de Javé, nas quais ele é descrito cavalgando as nuvens de tempestade e derrotando o mar, igualzinho a Baal, assim como o lado guerreiro de Javé. Alguns salmos bíblicos parecem ser versões israelitas de antigos hinos em honra de Baal.

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